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‘Mulher-Maravilha’, um filme que supera os clichês


mulher mara
Esta postagem foi publicada em 3 de junho de 2017 Cinema, Destaque Entretenimento 2, Notícias Barra Lateral.

É um filme de super-herói. Você já sabe como termina. Mesmo assim, ele prende, emociona, faz rir e injeta adrenalina na plateia

São muitas e surpreendentes as qualidades de Mulher-Maravilha, filme que conduz, pela primeira vez, a heroína ao centro da arena dos super-heróis no cinema. Surpreendentes porque o longa de Patty Jenkins, diretora que levou Charlize Theron a colocar as mãos no Oscar com Monster: Desejo Assassino (2003), consegue conciliar características que à primeira vista poderiam se aniquilar. O filme consegue ter personagens perfeitinhos, e portanto irreais, sem destroçar a fé do público, consegue defender a diversidade sem fazer discurso, ser inspirador sem ser piegas e até ser óbvio sem se tornar entediante. (Porque, afinal de contas, este é um filme de super-heróis e você já sabe como termina.) E consegue erigir uma protagonista notável, capaz não apenas de salvar o mundo sem aborrecer a plateia, como faz o colega Super-Homem, mas também de resgatar a DC Comics do fosso cinematográfico em que estava mergulhada por projetos como Esquadrão Suicida e Batman vs Superman, ambos de 2016.

Mulher-Maravilha também alcança o feito de unir cultura pop e mitologia grega sem soar rocambolesco. Por ser o primeiro dedicado à heroína, o filme se encarrega de contar sua história desde o começo. Tem início nos dias atuais, em que a culta Diana trabalha no Louvre, em Paris, e, com a voz rouca da israelense Gal Gadot, lembra numa mistura de nostalgia e amargura como deixou Themyscira, uma ilha habitada somente por mulheres e escondida por Zeus do cruel filho Ares, o deus da guerra, para salvar a humanidade. Na infância e na adolescência, a filha da rainha das amazonas, Hipólita (Connie Nielsen), é educada segundo os altos padrões da ilha, para sempre paralisada no tempo da Antiga Grécia. Depois de devorar livros, aprender mais de cem línguas e assimilar tudo sobre mitologia, ela é treinada nas artes bélicas pela tia, Antíope (Robin Wright), a maior de todas as guerreiras amazonas.

A rotina é quebrada quando um avião rompe a redoma criada por Zeus para escondê-las e despenca na água próximo à Ilha Paraíso, outro nome de Themyscira. Diana não pensa duas vezes antes de mergulhar e salvar Steve Trevor (Chris Pine), militar americano que fazia o perigoso jogo duplo do espião e trazia com ele informações cruciais sobre as estratégias dos alemães na Primeira Guerra Mundial. Não à toa, vêm navios da Tríplice Aliança no seu encalço. “Eu sou o cara bom, eles são os caras maus”, explica ele, num resumo rasteiro, assim que desperta na areia e descobre que foi salvo por uma beldade. Na sequência, surgem as amazonas, que se unem para debelar o perigo que acaba de bater à porta e para despachar Trevor para o além com os alemães. Diana o defende – “Ele lutou comigo contra os invasores”. É o nascimento da cumplicidade que a levará a seguir o americano para além das fronteiras de Themyscira. Ela parte porque quer encontrar e eliminar Ares, para interromper a guerra de que tem notícia por Trevor, um conflito de proporções gigantescas que envolve 27 países e já matou 25 milhões de pessoas. Mas também, é claro, porque o filme não prescinde de um bom romance.

É assim que se forma o casal perfeitinho. Ambos são lindos, fortes, inteligentes e, naturalmente, bem-intencionados. A pureza é vista sobretudo em Diana, que foi criada literalmente em uma redoma, à parte da sujeira e da crueldade do mundo. Apesar da perfeição, os protagonistas agradam o público. Primeiro, porque a guerra impõe obstáculos para que os dois fiquem juntos, e a relação da dupla se distancia de um namorico água com açúcar. Segundo porque eles têm nuances, ainda que leves e ainda que óbvias para quem já viu algum desenho de super-herói, têm as suas dúvidas e crises pessoais. Terceiro, porque podem mesmo cativar com a doçura que têm (e com o excelente trabalho de Gal e de Pine). E, quarto, porque os dois são bastante distintos um do outro, vêm de culturas e de tempos diversos, e Patty Jenkins sabe explorar as diferenças em todas as suas possibilidades. A começar pela ideia de que aquilo que distancia duas pessoas pode ser também o que as aproxima.

Patty Jenkins dirige a atriz Gal Gadot (//Divulgação)

Ao permear as cenas em que Diana e Trevor se estranham e se entendem, o choque cultural ganha ainda outras serventias. Ele embrulha e camufla o que poderia ser entendido como um discurso feminista – que não deixa de ser, mas fica suave – e panfletário. E injeta humor em um filme carregado de tensão e de cenas intensas de ação, bem realizadas por uma atriz treinada no serviço militar de Israel. É do choque cultural que surgem as sequências mais divertidas, além de provocativas. Ao atiçar o olhar antropológico do espectador, o faz ver a si mesmo e ao mundo, que considera normal, como um outro, como o diferente.

O choque cultural embala com uma camada extra cenas como aquela em que Diana é levada por Trevor para comprar algo que cubra mais o corpo do que os breves modelitos de Themyscira, pelos quais recebe aquelas indesejáveis cantadas típicas das ruas, ao aportar em Londres. Ao ver um espartilho na loja, ela se admira: “Essa é a armadura de vocês?” Ao que a secretária – “Secretária é alguém que faz tudo? Na minha terra, isso é chamado escravo” – de Trevor explica que a peça é usada para comprimir a barriga. “Mas para quê comprimir a barriga?” Diana também estranha os vestidos e as saias longas. “Como vocês lutam com isso?”

E se impõe na sequência em que os generais da Tríplice Entente, reunidos em Londres para discutir a possibilidade de rendição dos alemães, pedem que Trevor a retire da sala, um ambiente masculino, e ela obtém autorização para ficar ao mostrar ser a única ali capaz de entender e decifrar os idiomas usados por outra mulher em seu caderno de anotações, a terrível cientista alemã Maru (Elena Naya), que encripta suas anotações numa mistura de sumério com otomano. Maru desenvolveu armas que podem não apenas decidir a guerra em favor dos alemães, como mandar o mundo inteiro pelos ares. Para justificar a presença de Diana na sala, Trevor, sinal do machismo que reinava no ambiente, diz que ela é sua secretária pessoal. “Quem é ela?”, alguém quer saber. “Sou Diana, prince…”, responde a amazona, que iria se apresentar como filha da rainha Hipólita, antes de ser cortada pelo espião. “Diana Prince, minha secretária.”

A heroína também se impõem, naturalmente, nas cenas de luta. Ela arrasa frotas por completo, salva populações e hipnotiza e lidera ingleses e seus parceiros. “Estou ao mesmo tempo assustado e estimulado”, diz um indiano amigo de Trevor ao vê-la lutar dentro de um bar. Não como um homem: muito melhor do que qualquer um deles. E Diana só faz crescer em força e poder ao longo do filme, enquanto aprende de modo amargo sobre os homens e mantém, apesar de tudo, sua ternura e temperança. Para as adolescentes que irão às salas de cinema, a personagem tem tudo para ser um modelo de, para usar palavras caras às redes sociais onde esses adolescentes habitam, empoderamento feminino.

A cena que abre e fecha Mulher-Maravilha – não é nenhum spoiler – mostra Diana recebendo de Bruce Wayne uma foto tirada durante a Primeira Guerra Mundial. É a deixa da DC para indicar que os heróis vão se cruzar em breve no universo cinematográfico da editora — Liga da Justiça, como se sabe, estreia em novembro. Que venha logo esse encontro. E que Diana triunfe outra vez. Parece ser ela a líder de que a DC precisava. E talvez o mundo inteiro.


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