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Pesquisa mostra que 26% dos pediatras sofrem atos de violência no trabalho


Senior female doctor examining happy child, smiling.
Esta postagem foi publicada em 12 de outubro de 2017 Brasil, Notícias Barra Lateral, Saúde, Surreal.

Dois em cada dez pediatras no Brasil têm sido submetidos frequentemente a atos de violência em seu ambiente de trabalho. O dado está presente em uma pesquisa elaborada pelo Instituto Datafolha, sob encomenda da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que captou, em janeiro, a percepção de 1.211 pediatras de todos os estados. O resultado foi apresentado nesta quarta-feira (11), no 38º Congresso Brasileiro de Pediatria, em Fortaleza.

Em estruturas da rede pública de saúde, a incidência de tais casos aproxima-se de  30%, atingindo 26% do universo de médicos dessa especialidade. Em hospitais e consultórios privados, o indicador é de 12%. Outra revelação do levantamento é que 53% dos profissionais dividem o tempo entre expedientes das duas esferas.

Para a presidente da SBP, Luciana Rodrigues Silva, a lastimável situação é uma realidade que não fica restrita somente aos pediatras brasileiros, constituindo-se na vida da maioria dos médicos. Para que esse quadro seja desenredado, ela diz que os órgãos representativos da categoria precisam se mobilizar.

“Nós vemos que a sociedade se encontra em um momento delicado, porque a violência começa a fazer parte de nossos dias. A situação de trabalho também é muito estressante para os médicos e, além disso, há um volume muito grande de pacientes. Há vários fatores na determinação dessa violência”, afirma Luciana. A médica destaca que as mulheres pediatras estão, “como sempre”, mais vulneráveis.

Os números corroboram a opinião de Luciana, já que, enquanto 17% dos pediatras consultados declaram enfrentar agressões, 24% das profissionais mulheres sofrem com isso. Quando consideradas ocorrências dos últimos 12 meses anteriores à entrevista, a percentagem de mulheres atacadas sobe para 26%. Além disso, o nível de estresse ocasionado pelas condições de trabalho é o maior registrado entre as médicas nos últimos cinco anos: 66%.

O presidente da Sociedade Espírito-Santense de Pediatria, Rodrigo Aboudib, lembra um feminicídio ocorrido em 14 de setembro, em Vitória, que deixou a comunidade da capital consternada. A médica oncologista pediátrica Milena Gottardi foi morta com três tiros na cabeça, quando saía do Hospital Universitário Cassiano Antonio de Moraes. Seu companheiro é suspeito de ser o mandante do crime. “Chama a atenção o fato de ser assassinada no ambiente de trabalho, porque a falta de iluminação e de segurança propiciou que fosse o local escolhido para a execução”, destaca Aboudib.

“A violência contra médicos aumentou muito, especialmente nos pronto-atendimentos, onde as pessoas buscam ser socorridas rapidamente. A falta de condição de trabalho e o exacerbamento da carga de trabalho acabam provocando reações impensadas”, acrescenta.

Soluções

A atual diretora-geral do Hospital Geral Doutor Waldemar Alcântara, da rede estadual do Ceará, Fernanda Colares Borba Netto, conta que, embora tenha escolhido a profissão por seus ideais humanitários, já amargou a violência que atinge grande parte de sua categoria. Após deixar para trás um cargo público no Rio de Janeiro, seu estado de origem, a médica desenvolve atualmente, no hospital que comanda no Ceará, atividades de prevenção à violência, que vão de oficinas com acompanhantes dos doentes crônicos lá tratados a sessões de cinema e de terapia em grupo com a equipe de psicólogos do quadro.

Diferentemente do que observa Rodrigo Aboudib, Fernanda ressalta que o hospital gerido por ela não atende casos emergenciais, mas que, mesmo assim, assiste a conflitos nas internações. A maioria das agressões, destaca a médica, é cometida por mulheres, porque são elas que respondem formalmente pelos pacientes, isto é, prevalecem entre os acompanhantes.

“A gente sabe que a maioria das agressões ocorre por falha na comunicação, a gente tenta entender. No SUS [Sistema Único de Saúde], principalmente com a população mais carente, podemos trazer um pouco de alento, porque sabemos que ela sofre, além da doença, com todo um contexto social. Tem famílias com contraventores e ilegalidade no seu interior, e é nosso dever atender sem discriminação”, diz a médica.

Mencionada por Fernanda como “uma falta de confiança que vem por falta de vinculo”, capaz de descambar para conflitos diretos, Aboudib, por sua vez, acrescenta: “Esses desencontros também refletem um pouco o modelo da nossa sociedade, onde se busca tudo na hora e não se favorece a relação médico-paciente construída no consultório e no ambulatório, que é onde está o melhor que podemos ofertar às crianças”.

Jornal do Brasil


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